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Unimed-BH On-line nº 702

Entre o sertão e as veredas: as lições de Cortella sobre a coragem em tempos de mudança

A entrada de Mario Sergio Cortella no palco marcou o encerramento do 21º Encontro de Cooperados e deu o tom da última grande reflexão do evento. Diante da plateia formada por médicos cooperados, o filósofo, escritor e professor retomou a pergunta que guiou toda a programação: qual é o papel de quem cuida de pessoas em um mundo atravessado por aceleradas mudanças? A resposta não veio em forma de teoria, mas de convite. Um convite à coragem, à humildade e à responsabilidade diante do futuro.

Partindo do tema “O cuidado em tempos de transformações”, Cortella encontrou em Guimarães Rosa a imagem que conduziu sua palestra. Ao lembrar que “o grande sertão” representa momentos de incerteza e solidão, destacou que a vida também oferece “veredas”, ou seja, saídas, caminhos e possibilidades. “A vida quer da gente é coragem”, repetiu ao longo da apresentação, transformando a célebre frase em uma provocação para quem precisa tomar decisões diariamente em cenários cada vez mais complexos.

A partir dessa ideia, o filósofo construiu uma reflexão sobre a maneira como encaramos as mudanças. A coragem, explicou, “não pode ser entendida apenas como a ausência de medo. Ela exige movimento, iniciativa e disposição para buscar alternativas quando tudo parece indicar o contrário.” Nesse contexto, apresentou uma de suas frases mais marcantes da noite: “O impossível não é um fato. Ele é apenas uma opinião.”

A esperança apareceu como consequência direta desse pensamento. Longe de representar espera passiva, ela foi apresentada como aquilo que dá fôlego para continuar caminhando. Ao abordar o conceito de utopia, Cortella contestou a interpretação de que ela seria sinônimo de impossibilidade. Para ele, “a utopia representa aquilo que ainda não foi alcançado, mas que pode ser construído. Não um lugar impossível, mas um ainda não.”

O raciocínio levou a outro tema central da palestra: a humildade. Em um encontro que discutiu os impactos da tecnologia sobre o futuro da saúde, Cortella destacou que o avanço das ferramentas não reduz a necessidade da sabedoria humana. Ao contrário. “Quanto maior a transformação, maior a importância de reconhecer limites e aprender continuamente. Humildade não é subserviência; é a capacidade de compreender que ninguém sabe tudo e que o conhecimento se amplia na troca com o outro.”

Foi nesse ponto que trouxe à conversa Terêncio, dramaturgo e poeta da Roma Antiga, autor da frase: “Tudo o que é humano não me é estranho”. Para Cortella, a reflexão dialoga diretamente com a prática médica e com o sentido mais profundo do cuidado. “Se algo afeta outra pessoa, também deve despertar nossa atenção, nossa compreensão e nossa capacidade de acolhimento.”

Ao se aproximar do encerramento, o filósofo conectou esperança e compromisso ao lembrar os versos de Gonzaguinha. “A vida devia ser bem melhor. E será”. - A primeira afirmação é um desejo; a segunda, um compromisso. O futuro não melhora sozinho. Ele depende da disposição de cada pessoa para agir e construir novos caminhos. Para consolidar a ideia de que a coragem carece de movimento, citou ainda a poetisa mineira Adélia Prado:

“Eu sempre sonho que uma coisa gera,
nunca nada está morto.
O que não parece vivo, aduba.
O que parece estático, espera.”

A despedida veio com uma frase extraída de Sagarana, de Guimarães Rosa: “O sapo não pula por boniteza. Ele pula por precisão.”

O trecho resume a essência da palestra. Em tempos de mudanças profundas, não avançamos por conveniência nem por vaidade. Avançamos porque é necessário. Porque permanecer parado não é uma opção. Sob aplausos, a mensagem final ficou clara para os cooperados: coragem, esperança e humildade continuam sendo ferramentas indispensáveis para quem deseja acompanhar as transformações da tecnologia e da saúde, sem perder de vista a forma de cuidar genuinamente humana.

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